Tesouro Selic vs Fundo DI: quanto 1% de taxa de administração custa em 10 anos
O fundo DI e a LFT entregam, na origem, quase o mesmo rendimento. O que muda o resultado líquido são taxas e tributação. A conta fechada em reais.
R$ 100.000 aplicados em Tesouro Selic por 10 anos, com Selic constante em 10% ao ano, terminam em aproximadamente R$ 207.000 líquidos de imposto e de custódia B3. O mesmo valor em um fundo DI cobrando 1% de taxa de administração, sujeito a come-cotas, termina em torno de R$ 186.000. A diferença é de cerca de R$ 21.000 — ou um IPad de alta linha por ano, sem contar juros. Nos dois produtos o gestor faz rigorosamente a mesma coisa: aloca em papéis pós-fixados.
Esse post mostra de onde vem a diferença, componente por componente. Porque "diferença de R$ 21 mil" é o que ninguém te fala quando vende um fundo DI no app com dois cliques.
O que os dois produtos fazem, por trás
Fundo DI tem, pela política de investimento, 95% a 100% da carteira em títulos públicos e privados atrelados ao CDI. Na prática, a maior parte desse "conservador" é LFT. O gestor não "performa" nada — o fundo rende o CDI menos custos. Isso é reconhecido no próprio nome da classe na ANBIMA: "Renda Fixa DI — Simples", que restringe risco e deixa pouco espaço para gestão ativa.
A LFT, comprada direto no Tesouro Direto, é o papel subjacente desse fundo, comprado sem intermediário. A remuneração é a Selic acumulada dia a dia, paga no vencimento (ou no resgate antecipado via Tesouro).
A conta lado a lado
Cenário: R$ 100.000 aplicados por 10 anos, Selic constante em 10% ao ano.
Tesouro Selic:
- Rendimento bruto acumulado: ~R$ 159.000 (100% do CDI)
- Custódia B3 0,2% a.a. sobre saldo médio: ~R$ 4.500
- IR 15% sobre o rendimento (após 721 dias da última aplicação): ~R$ 23.100
- Sem come-cotas
- Líquido: ~R$ 231.400 no vencimento
Fundo DI com 1% de taxa de administração:
- Rendimento bruto: ~R$ 159.000 antes de taxa
- Taxa de administração 1% a.a., cobrada sobre PL diariamente: reduz rendimento para ~R$ 139.000
- Come-cotas 15% a cada semestre sobre rendimento: R$ 20.850 antecipados (perda composta de ~R$ 8.000 ao longo do período)
- IR 15% residual no resgate
- Líquido: ~R$ 210.200
Diferença: cerca de R$ 21.000 em favor da LFT. Sensibilidade: com taxa de 1,5%, a diferença sobe para R$ 30.000+. Com taxa de 0,5% (fundo DI agressivamente barato), cai para uns R$ 11.000 — ainda a favor da LFT, porque o come-cotas pesa sozinho.
O que a LFT não faz
Honestidade intelectual: LFT tem desvantagens reais que fundos DI resolvem.
- Liquidez D+1 via Tesouro, não D+0. Fundo DI oferece D+0 em corretoras grandes.
- Marcação a mercado aparece nos extratos diários. Em crises agudas (março/2020, episódios de risco fiscal), a LFT oscila mais do que a cota de fundo DI, porque o investidor vê o preço de venda. Para quem se assusta, isso pesa.
- Automatismo. Fundo DI debita automaticamente da conta corrente, tem aplicação programada, resgate automático. Tesouro Direto exige um clique a mais.
Para quem tem reserva de emergência de 3 salários e não confia que vai segurar a mão em um susto de mercado, a conveniência e a menor marcação psicológica do fundo DI podem valer R$ 2.000 por ano. É decisão pessoal, não matemática.
Veja lado a lado
Para quem faz sentido cada um
A LFT ganha na matemática quando:
- Prazo de carregamento maior que 2 anos
- Valor aplicado acima de R$ 10.000 (isenção da custódia B3 para LFT)
- Investidor consegue lidar com oscilação visível de marcação a mercado
- Objetivo é maximizar retorno líquido, não conveniência
O fundo DI ganha quando:
- Precisa de liquidez D+0 para conta principal
- Valor muito pequeno (abaixo de R$ 5.000), onde a custódia isenta do Tesouro já resolveria mas o investidor quer integração com o banco
- Taxa de administração abaixo de 0,3% — alguns fundos DI de corretora mais barata chegam lá
- Preguiça custa muito caro no balanço pessoal
Nenhum dos dois é o veículo certo para reserva de emergência que pode precisar ser sacada em pânico — e nenhum deles é para prazo longo onde Tesouro IPCA+ entregaria retorno real melhor. O DI e a LFT estão no mesmo lugar na curva, só que o Tesouro sem intermediário custa menos.
Próxima conta
Para quem tem a reserva completa em LFT ou fundo DI, o próximo passo é pensar no trecho acima da reserva: o dinheiro de prazo médio que pode aceitar marcação a mercado. É aí que a marcação vira ativo e não passivo, e o Tesouro IPCA+ começa a fazer sentido. Mas isso é outra conta.